A presença é percebida antes pelo barulho de folhas de plátano secas espalhadas nas calçadas do que pelas folhas de calendário. Não há flores nas cerejeiras, mas as folhas oscilam de cores tanto quanto o céu do pôr do sol, até que se desprendem e cobrem as calçadas. O som do outono é o vento sem umidade cortando narizes, levando as folhas que perderam o colorido para viajar pelos ares. Sem falar nos primeiros espirros.
Essa estação é cheia de brinks. O sol invade os cômodos da casa, mas os pelos arrepiam com o ar gelado cortando sem piedade braços nus desavisados. Analgésicos e lenços de papel criam morada nas bolsas e nas prateleiras por esse motivo. Sempre aquela confusão na hora de escolher roupa, e a certeza de que estará frio quando eu estiver de bermuda e quente se eu estiver de blusa.
Durante o banho, olho pra baixo e vejo cabelos indo pelo ralo. Um câncer, eu penso. Aí lembro da temperatura do chuveiro. Parece câncer, mas é só água quente castigando meu couro cabeludo. Diferente, viro picolé no banho. Lembro que é hora de colocar os casacos no sol para espantar o mofo. Falta pouco para o inverno chegar.
Quem passa sem pressa pelas ruas, pela cidade, pela vida, depara-se com o céu de tonalidade azul marcante, sem nuvens, o que dá ainda mais contraste ao colorido das folhas árvores. As primeiras pinhas caem dos pinheiros, e as primeiras sapecadas de pinhão acontecem. O ponteiro da balança sobe.
O outono salta aos sentidos sutilmente, vagarosamente, demoradamente. Não é estação para os fracos.
Ahhh eu gostei! Gostei mesmo!
ResponderExcluir=o**