Já dizia Sócrates: conhece-te a ti mesmo.
Conhecer-se é um exercício da vida inteira. Cada vez que eu me olho no espelho, nunca vejo a mesma pessoa duas vezes.
Não sei se quem me lê vai conseguir traçar uma lógica, mas vou contar. Participei de umas rodas de poesia em que precisávamos dizer o que éramos. Gostava de responder:
- Sou um eco num beco vazio.
Agora não me vejo mais assim. Acho que sou uma nuvem. Nuvens decidem quando o sol aparece, embora sozinhas não possam barrar seus raios. Para isso é preciso toda uma situação. E quando existe motivo, a nuvem chove e troveja. Aos olhos de quem passa, as nuvens são diferentes animais, cenas, abstrações... Varia de pessoa para pessoa, cada uma enxerga aquilo que sua realidade permite. E no fim, aquele formato continua sendo uma nuvem, independente do olhar para ela lançado.
https://www.youtube.com/watch?v=ZNy1w48nNl
segunda-feira, 27 de maio de 2013
O dom de ouvir.
Quero compartilhar com vocês algo de bom que descobri recentemente. Descobri o quanto ouvir outras pessoas faz bem.
Logo eu, que tenho a sensação da órbita girando em torno dos meus gostos, das minhas amarguras, das minhas desilusões, abandonei esse conceito ao fechar a boca, abrir os ouvidos e o coração olhando nos olhos das pessoas que converso. Nem sempre estou entrevistando, mas é certo que alguma coisa estou aprendendo. Ouvir com atenção e guardando o que o outro diz é ainda um exercício. Indispensável para jornalistas e recomendável pra quem quer se tornar um ser humano melhor.
Eu tenho mania de achar que as minhas histórias são interessantes. Que todo mundo quer saber o que aprendi na última aula da faculdade, ou o que eu achei da última atualização do Android, e desando a falar deixando as pessoas entediadas. Sem colocar nos ombros as queixas de quem te conta, sem um compromisso de precisar ajudar. Apenas ouvir as histórias. Deixar que cada relato teça o grande manto da compreensão de mundo, sem preconceito com a boca torta ou as rugas nos cantos dos olhos de quem conta. Ouvir histórias, conhecer mundos próprios que passam as fronteiras dos próprios horizontes, é uma das coisas mais legais e que mais nos fazem crescer. Mais cedo ou mais tarde, ainda quero postar umas conversas que tenho em ônibus, terminais rodoviários, filas de banco e outros lugares em que aproveito para conhecer outros mundos.
Já dizia um velho amigo advogado: Deus foi um sábio ao nos criar com dois ouvidos e apenas uma boca.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Outono ou tudo
A presença é percebida antes pelo barulho de folhas de plátano secas espalhadas nas calçadas do que pelas folhas de calendário. Não há flores nas cerejeiras, mas as folhas oscilam de cores tanto quanto o céu do pôr do sol, até que se desprendem e cobrem as calçadas. O som do outono é o vento sem umidade cortando narizes, levando as folhas que perderam o colorido para viajar pelos ares. Sem falar nos primeiros espirros.
Essa estação é cheia de brinks. O sol invade os cômodos da casa, mas os pelos arrepiam com o ar gelado cortando sem piedade braços nus desavisados. Analgésicos e lenços de papel criam morada nas bolsas e nas prateleiras por esse motivo. Sempre aquela confusão na hora de escolher roupa, e a certeza de que estará frio quando eu estiver de bermuda e quente se eu estiver de blusa.
Durante o banho, olho pra baixo e vejo cabelos indo pelo ralo. Um câncer, eu penso. Aí lembro da temperatura do chuveiro. Parece câncer, mas é só água quente castigando meu couro cabeludo. Diferente, viro picolé no banho. Lembro que é hora de colocar os casacos no sol para espantar o mofo. Falta pouco para o inverno chegar.
Quem passa sem pressa pelas ruas, pela cidade, pela vida, depara-se com o céu de tonalidade azul marcante, sem nuvens, o que dá ainda mais contraste ao colorido das folhas árvores. As primeiras pinhas caem dos pinheiros, e as primeiras sapecadas de pinhão acontecem. O ponteiro da balança sobe.
O outono salta aos sentidos sutilmente, vagarosamente, demoradamente. Não é estação para os fracos.
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